A tarefa havia me feito pensar, pensar muito.
Massagear os pés de uma deusa havia sido melhor do que eu imaginei. Não melhor, mas menos pior do que pensei que seria. O tempo, similar a uma eternidade para mim, que passei lá me fez pensar no Acampamento, em meus amigos, em Lee e o que eu realmente queria fazer em meu futuro. Tinha dezesseis anos, teria que decidir em algum momento se realmente gostaria de ser uma caçadora ou não. Os lados positivos em ser uma gritavam em minha mente, e os negativos eram oprimidos por estes e já praticamente não existiam mais.
Quando voltei ao Acampamento, algumas coisas ocorreram e tudo me levava a tomar uma decisão o mais rápido possível. Tive que respirar profundamente antes de iniciar a escrita de minha carta a Ártemis, escolhi as palavras cautelosamente e a terminei com um sorriso satisfatório em meu rosto. Poucos minutos depois, praticamente o Acampamento por inteiro sabia de minha decisão, o que era estranhamente constrangedor. Apesar de ter desmentido algumas vezes, acabei por confirmar a alguns campistas e logo, o Acampamento inteiro saberia.
Não queria enfrentar olhares ou pessoas indo até meu chalé para saber o que havia ocorrido. Não queria falar com ninguém, na verdade. Deixei um breve recado para Nico e saí do meu chalé enquanto a noite começava a se instalar no Acampamento. A lua se posicionava e algumas estrelas surgiam no céu quando finalmente me sentei próximo ao lago, com meus pés submersos na água, agitando-os periodicamente para evitar qualquer tipo de cãibra.
Estava distraída adivinhando constelações quando ouvi um estranho barulho, provavelmente alguém que havia vindo me avisar do toque de recolher, ou sobre o jantar, ou perguntar quem matou a Norma. Não me permiti virar para trás, apenas continuei a encarar as estrelas.
- Eu vou ficar aqui hoje. É verdade. Foi a Wanda. - Falei rispidamente.
Já havia bastante tempo desde que eu havia cumprido a minha missão e desde então passei a ter tempo de sobra no Acampamento. Tempo que me levara à visitar a Katie durante algumas noites mas eu não poderia ir lá toda noite. E como não podia ser diferente, nas noites em que eu ficava sozinho em meu chalé aproveitava para pensar sobre um milhão de coisas.
Pensava em como aquela semana se passara tão rápido. E que durante ela algumas coisas estranhas aconteceram. Tipo na terça-feira, quando um campista veio me falar sobre um certo boato. Envolvia a Bianca e o Michael. Eles haviam terminado. Lembro-me bem da cara do individuo enquanto me contava. Procurando uma reação. Algum expressão que mostrasse felicidade ou algo assim. Mas não demonstrei nada. Apenas fui ríspido e disse que a relação deles não me interessava. Mas isso com certeza não era o que mais me incomodava. Boatos continuavam a rolar na boca de todos no acampamento. E dessa vez, um deles acabou me pegando de surpresa. Bianca iria se tornar uma caçadora.
Aquilo mexeu comigo. Tá certo, eu e a Bianca não tínhamos mais nada, mas mesmo assim não deixou de mexer. E foi numa sexta-feira que eu notei que Bianca não havia se apresentado para jantar. Perguntei ao campista que estava ao meu lado se ela já havia ido embora e ela dissera que não. Ela está no lago, tenho certeza. E discretamente me retirei de onde jantávamos e caminhei em direção ao lado. Lá estava ela. Tentei me aproximar fazendo o mínimo de barulho possível mas as habilidades de Bianca mais uma vez me impressionaram e ela percebeu a minha presença. Sem nem sequer virar para mim ela falou que “foi a wanda”.
O que foi que a Wanda fez, Bianca?
Ela se assustou com aquela voz tão familiar e se virou para mim.
Oi Lee =)
Oi Thalia =) Tudo bom?
Não pude deixar de dar uma risada da forma que com que Katie ficou vermelha quando eu disse que não era uma ideia. Mas logo tratei de explicar a situação e de convida-la para ver um filme. Sua resposta foi positiva. Mas depois daí, um silêncio voltou a reinar sobre o ambiente. E eu odiava silêncio.
Que tal amanhã? Pode ser aqui mesmo no seu chalé. Não quero que a gente seja atrapalhado pela desprezível presença do Michael. Eu disse e fiquei olhando em seus olhos. Esperando uma resposta.
Quando Lee tomou a iniciativa de marcar o dia para vermos o filme, eu me animei, afinal, eu não teria de me esforçar para puxar assunto novamente. Ele disse que seria melhor no meu chalé, pois não queria ser atrapalhado pelo Michael. Quando ele disse o nome do irmão, eu tive a leve impressão de ver, no fundo dos seus olhos, chamar vermelhas indicando raiva. Eu sabia que essa mágoa que ele tem do irmão é por causa de Bianca, e saber que ele ainda se incomodava por ela tê-lo trocado me deixava mal.
Mas nós dois estávamos, de certa forma, no mesmo barco. Gostando de alguém que nos magoou, mas queríamos seguir em frente. Mais tarde, eu conversaria sobre isso com Miranda, e ela disse “mas você está usando o Lee pra esquecer o Travis.” Não é verdade. Eu gosto do Lee. Mas espero que ele não perceba isso.
Novamente o Lee fez a cara de expectativa, e eu disse “claro, eu vou adorar!”.
“Claro, eu vou adorar” Essas foram suas palavras. E só bastou isso pra Katie tirar um sorriso de meu rosto. Na verdade, bastava ela me olhar e sorrir pra mim e ela já conseguiu. E embora estivessimos nos entendendo muito bem, eu precisava ir.
“Katie, eu preciso ir agora” Eu disse. E ela assentiu com a cabeça, mudando sua expressão para um rosto um pouco mais melancólico. Ela me levou até a porta e se despediu de mim. Antes de ir, nos certificamos do horário para vermos o filme no dia seguinte. Só então, dei boa noite para ela e parti.
Depois do que Lee disse, eu percebi que eu realmente fiz uma pergunta tola. Mas ele não me deixou sem graça, e falou naturalmente, de forma que não me deixasse constrangida por ter sugerido uma coisa tão estúpida.
Logo depois ele deu ideia de irmos ver um filme, e em seguida uma expressão de expectativa surgiu em seu rosto. É claro que eu não diria que não, mas eu procurei uma forma amável de dizer “sim”, porque eu não queria parecer oferecida. Mas a resposta saiu naturalmente da minha boca. Depois, nós dois sorrimos um para o outro, talvez esperando quem iria dar a iniciativa de marcar data, horário e local.
Não pude deixar de dar uma risada da forma que com que Katie ficou vermelha quando eu disse que não era uma ideia. Mas logo tratei de explicar a situação e de convida-la para ver um filme. Sua resposta foi positiva. Mas depois daí, um silêncio voltou a reinar sobre o ambiente. E eu odiava silêncio.
Que tal amanhã? Pode ser aqui mesmo no seu chalé. Não quero que a gente seja atrapalhado pela desprezível presença do Michael. Eu disse e fiquei olhando em seus olhos. Esperando uma resposta.
Provavelmente eu já tinha enchido o saco do Lee perguntando de Travis, porque ele mudou de assunto de forma brusca, e eu fiquei com cara de panaca de novo.
Ele perguntou sobre minha tarefa e eu comecei a falar. Ele continuava rindo quando eu falava de Phobos, mas dessa vez rolou algo de diferente. Ele me deu um sorriso como Phobos tinha me dado ao me ver com o vestidinho, e depois me olhou de cima a baixo. Então eu perguntei o que houve, e ele disse “Nada. É que as pessoas geralmente ficam com medo de Ares e Phobos, e não encantadas.”
Realmente era verdade. Mas eu não conseguia sentir medo de Phobos e nem de Ares.Espero que eles não leiam isso.Logo depois, foi a vez de Lee fazer cara de paisagem e não puxar assunto. Acho que ele esperava que eu o fizesse! Droga, mas eu era tão ruim nisso. Mas tentei!
Eu não podia mais perguntar de sua missão, e eu o conheço pouco pra lembrar de assuntos em comum. Pensei em perguntar de Bianca, mas isso me deixaria constrangida, e eu realmente não queria. Eu parei por uns cinco minutos e fiquei admirando aquele lindo rosto que provavelmente todos os filhos de Apollo devem ter. Mas o Lee… ah, ele é diferente! Ele mexia comigo de uma forma que nem Travis o fazia.
O silêncio sumiu quando a coragem veio à mim, e eu perguntei “Que tal um cinema, ahn… qualquer dia desses?”
Um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente novamente. E me fez pensar porque eu realmente havia ido lá. Sem nenhum assunto. Eu nem sequer sabia se a Katie realmente queria que eu estivesse lá. Mas antes que novamente eu pudesse desistir e ir embora, Katie fez outra pergunta. Dessa vez, ela me convidou para ir a um cinema.
Cinema? Eu perguntei. E ergui uma das sobrancelhas. Ela me olhou meio sem jeito e pediu desculpa, alegando que era uma idéia boba. Claro que não, Katie. É só que com uma guerra tão próxima, acho que Quíron não iria deixar nos sairmos para ir ao cinema. Ainda mais porque é perigoso lá fora. Mas que tal um filme? No meu ou no seu chalé. No dia que você estiver a fim. Eu queria que esse dia fosse o mais rápido possível. Fiquei olhando para ela e sorrindo. Esperando ansiosamente por uma resposta positiva.
Lee pediu que eu me afastasse, e eu cheguei para trás. Então ele pulou a janela e parou em minha frente. Eu fiquei um pouco envergonhada de ver aqueles lindos olhos dele me fitando, e então eu o convidei para sentar na cama. Ele se sentou ao meu lado, e dessa vez eu não fiquei calada igual uma idiota. Perguntei como ele tinha se saído na tarefa dele, e ele começou a contar como foi.
Ele estava falando sobre todas as dificuldades e perigos pela qual Travis e ele haviam passado. A cada palavra dele eu perguntava “E o Travis?”. Tinha uma expressão em seu rosto. Uma expressão de um cara constrangido, como se ele esperasse que eu me preocupasse mais com ele. Bom, a verdade é que… eu realmente me preocupava mais com ele. Mas eu não sabia como mostrar a minha preocupação, e nem sabia se eu queria mostrar isso. Talvez ele pensasse que eu estava caidinha por ele. E talvez fosse verdade.
Logo eu percebi que seria melhor mudarmos de assunto, pois ele parecia não estar muito a vontade comigo perguntando a todo tempo sobre Travis. Ele perguntou como foi a minha missão, e eu começei a dizer.
Assim como na janela, ele riu novamente quando eu disse que passava pelos cantos escuros para que Phobos não me visse com aquele vestidinho que Ares me mandou usar. Ah, e Ares! Lee ficou surpreso quando eu disse que Ares e Phobos não me deram medo, e eu fiquei mais foi encantada com a beleza dos dois. Ótimo, ao dizer isso deixei o Lee constrangido novamente.
Eu estava sentado ali na cama com ela e tudo que ela fazia era me perguntar sobre o Travis. Eu não queria demonstrar indiferença, mas meu rosto me traía e a cada vez que ela fazia uma pergunta em relação ao Travis eu me irritava um pouco mais.
Resolvi mudar de assunto e começamos a falar sobre sua missão. Como tinha sido. Era muito engraçado o modo que ela dizia que tinha fugido de Phobos a noite inteira. Mas não pude deixar de mostrar indiferença quando ela disse que eles não a assustaram e sim a impressionaram por sua beleza. Indiferença não. Eu só achei meio estranho. Ninguém nunca tinha descrito Ares e Phobos daquela forma.
Pensei em algo para perguntar. Para não ficar um silêncio constrangedor. Mas não consegui puxar nenhum assunto. Iria deixar Katie fazer isso.
Respondi o oi fofo dele. Ele perguntou se me acordou, e a única coisa que eu consegui fazer foi assentir com a cabeça que não. E ficar sorrindo que nem uma pastel.
Diferentemente de mim, o Lee não ficava quieto e calado. Ele não tirava aquele sorriso lindo e encantador do rosto, mas falava. Perguntou como eu estava, como fui na missão. Eu também queria saber como tinha sido a tarefa dele, mas antes que eu pudesse responder, eu percebi que ele estava na janela, do lado de fora. Então eu disse “Aí fora tá frio. Vem aqui pra dentro pra conversarmos. Minha irmã não está!”
Ela me contou sobre sua missão rapidamente enquanto eu ainda estava na janela. E eu não pude deixar de dar uma risada quando imaginei ela fugindo do Phobos. E também não pude deixar de imaginar o quanto ela ficou sexy nessas tais roupas curtas de escrava. Mas não era a hora pra comentar algo como isso. Talvez nunca seria. Antes que eu pudesse puxar um novo assunto para evitar o silêncio constrangedor, ela me convidou para entrar. E disse que sua irmã não estava no chalé. Que interessante.
Assenti com a cabeça e pedi que ela se afastasse um pouco para trás. E rapidamente, pulei sua janela. Eu estava mais elétrico do que o normal naquela noite. Acho que foi o fato de eu ter dormido tanto depois de chegar da missão com Ártemis.
Assim que entrei ela me convidou para sentar em sua cama. Sentei ao seu lado. E ela me perguntou como tinha sido minha missão com Ártemis. E pediu detalhes. Contei sobre o perigos que eu e o Travis havíamos passado. Mas acho que ela estava mais preocupada em saber dos perigos que o Travis tinha passado do que os que eu tinha. O que me frustrava um pouco, não posso negar. Depois de explicar a ela com detalhes o que havia acontecido no acampamento das caçadoras. Pedi para que ela me desse mais detalhes de sua missão. E de como havia sido estar cara-a-cara com Ares.
Estava tarde. E frio. Eu tinha voltado um dia anterior da minha tarefa. Dormi o dia inteiro de tão cansada que estava, então tive que nesta noite arrumar minhas coisas e dar um jeito no chalé, já que Miranda nada faz.
Comecei a arrumar o meu chalé, tinha bastante roupa espalhada. Minha irmã realmente estava demais. Enquanto arrumava, eu estava resmungando e de repente lembrei do Lee. Eu não o tinha visto depois que cheguei, e estava com saudades. Eu não iria no chalé dele. Se ele não veio no meu, talvez não quisesse me ver.
Arrumei o chalé, e deitei na cama. Comecei a ler um livro, e… bateram na janela. Mas quem ousaria me incomodar aquela hora da noite? Imaginei ser Connor, tentando chamar minha atenção. Aquele menino realmente não sossega. Mesmo assim, poderia ser alguém realmente importante. E era. Fui abrir a janela e dei de cara com Lee, que deu umlindo lindo lindosorriso e disse ‘oi’.
Pra minha sorte, era realmente a Katie que estava no chalé. Ela usava uma camisa meio desgastada. Provavelmente seria uma camisa de dormir. Não pude deixar de dar um sorriso quando a vi na janela. E a cumprimentei com um Oi. Que foi logo respondido.
“Acordei você?” Eu perguntei. E ela assentiu com a cabeça que não. Então olhei nos olhos dela e disse “É… desculpa ter vindo aqui essa hora, é que eu estava com saudades. Como foi a missão?” Perguntei. Sem deixar espaços para qualquer silêncio constrangedor.
Mais uma noite que eu estava sem sono em meu chalé. Havia chegado a alguns dias da missão de Ártemis. Da qual, felizmente, voltei vivo e com todas as partes do corpo no devido lugar. Mas aquela era mais uma das noites sem dormir. E uma pessoa me veio no pensamento. Katie. Mas será que eu ainda estaria acordada?
Me levantei meio desajeitado, coloquei uma camisa e fui saber se ela ainda estava realmente acordada. Chegando na porta do seu chalé não consegui bater. Seria muito obvio. E se as irmãs dela estivessem aí? Resolvi dar a volta e vi pela janelinha do fundo que tinha alguém acordada ainda naquele chalé. Dei dois toques leves na porta.
Se não fosse a Katie que me atendesse na janela, eu iria fingir que era sonambulo e voltaria pro meu chalé.
Preparei-me para ir buscar os garotos.
O primeiro passo, é claro, foi avisar minhas meninas de que durante os próximos três dias teriam companhia. As reações variaram de bufos de desprezo até sorrisos maliciosos de “Até que enfim um pouco de sangue”.
O segundo foi buscar os pestinhas.
Apareci ao lado do pinheiro no exato horário combinado. Travis Stoll, Lee Fletcher e Quiron aproximavam-se, terminando de subir a colina. Cada um dos garotos carregava uma mochila e Lee trazia também um colchonete embaixo do braço. Reparei que ambos portavam armas e sorri mentalmente. Tolos.- Ártemis. – Quiron se curvou em cumprimento. – Por favor, entregue-os inteiros. – pediu, escondendo um sorriso.
Ao seu lado, Lee e Travis se entreolhavam assustados.
- Tentarei.Quiron despediu-se e começou a descer a colina, deixando-me sozinha com os garotos. Lee, que já havia me conhecido antes, me encarava com um certo receio. O outro menino, Travis, desviava os olhos, incerto se estaria tudo bem olhar ou não.
- Segurem-se em mim – estendi minhas mãos, um pouco a contragosto. Os dois hesitaram, mas então se seguraram e, segundos depois, encontrávamo-nos na floresta.
Assim que chegamos, o olhar dos dois circulou ao nosso redor. Eu havia propositalmente escolhido trazê-los para uma clareira ao meio de árvores. Travis, agora mais afastado de mim, coçou a cabeça, confuso.
- Onde estão as garotas?
Talvez não fosse a intenção dele soar tão interessado. Talvez fosse só curiosidade. Eu não esperei pra descobrir.
Avancei em sua direção, raiva enchendo meu corpo.- Não ouse chegar perto de nenhuma delas. – tentei acalmar-me, lembrando das palavras de Quiron. Já mais calma, caminhei para longe, de modo que os dois pudessem me ver.
- As caçadoras estão a alguns metros a Leste daqui – os dois tentaram esconder sorrisos. – E vocês não terão permissão de vê-las até a hora do treinamento.
Ambos soltaram um muxoxo. Rolei os olhos.
- Vocês poderão dormir por aqui mesmo, se quiserem tomar banho tem um lago a Oeste – apontei-lhes a direção. – Se alguma coisa acontecer, apenas chamem meu nome. Virei buscá-los pela manhã.
Já estava prestes a sair quando me lembrei de mais uma coisa.- E vocês não vão precisar das armas.
Então, sem dar tempo para que respondessem, voltei até meu acampamento.
As Caçadoras acabavam seu treino e, assim que me viram, algumas franziram o cenho por eu estar sozinha. Eu teria tempo para explicá-las depois.
Dirigi-me até uma das barracas, que se localizava um pouco além da minha. Adentrei-a e deparei-me com um estoque de equipamentos de combate. Escolhi duas armaduras, que eu presumi serem do tamanho dos garotos, e levei-as até minha cabana, largando-as em um canto.Já havia anoitecido completamente agora e as garotas se encontravam em volta de uma fogueira. Sentei-me junto com elas e começamos a comer e conversar.
No meio da refeição, avisei-as brevemente.- Eles estão próximos daqui. Não vão para Oeste ou os encontrarão.
No momento em que o nosso querido Sr. D nos designou para realizar uma tarefa para Artemis eu já sabia que os próximos dias seriam difíceis. Passei dias imaginando coisas horríveis pelo qual eu e o Travis passaríamos. E quando a hora chegou, seguimos juntos para a entrada do acampamento. No caminho, percebi que Travis não estava levando um colchonete ou algo assim. Será que ele estava esperando que Artemis iria nos hospedar em um chalé 5 estrelas na beira de um lago? Pensei até em avisa-lo, mas já não dava mais tempo. Artemis já estava nos esperando encostada em um pinheiro.
“Devolva os vivos”. Esse foi o pedido de Quíron à Artemis. O que, aparentemente, assustou bastante Travis. Não vou dizer que não fiquei assustado mas eu já conhecia Artemis e sabia que no fundo, bem no fundo, ela tinha um bom coração. E ela não mataria um filho de seu próprio irmão né? Ou mataria?
Sem muitas palavras ou cumprimentos, ela nos levou a uma floresta. Sim, estávamos em uma floresta. Foi aí que muitas dúvidas brotaram em nossas cabeças. Quer dizer, não sabíamos muito sobre a tarefa. Sabíamos que íamos ao acampamento das caçadoras para fazer algum tipo de tarefa para Artemis. E foi ao ver que estávamos em uma floresta que o Travis, inocentemente, perguntou onde estavam as caçadoras. Nessa hora eu desejei que ele fosse mudo. Artemis olhou para ele como se estivesse olhando para um alvo pronto pro abate. Mas antes que ela pudesse abater Travis, ela respirou e manteve a calma. Explicou a localização das caçadoras e especificou que não deveríamos falar com elas, olhar para elas, pensar nelas e respirar o mesmo ar que elas. E depois disso, simplesmente sumiu.
Olhamos um para o outro por alguns instantes pensando que era uma brincadeira e que ela ia voltar para nos dar um abrigo decente. E não é que ela voltou? Dessa vez trazendo comida. Eu disse comida? Quis dizer resto de comida. Olhei para aquilo e pensei que tipo de animal comeria aquilo. Mas não era hora para reclamar. Afinal, a nossa situação não nos permitia escolher nossos pratos prediletos. Ou pedir pizza. Artemis mais uma vez desapareceu. Dessa vez, sabíamos que ela não reapareceria. E, aos poucos, ainda meio tímidos e com nojo, começamos a comer. Não bastou 5 minutos para que não houvesse mais comida.
Procurei um lugar mais aconchegante e abri meu colchonete no chão mesmo. Sentei nele e olhei para Travis.
- Você não trouxe nada, né? - Perguntei para Travis e ele rapidamente assentiu com a cabeça que sim. - Espere aí, eu devo ter algo para você na minha mochila. - Coloquei a minha mochila em meu colo e comecei a procurar meus dois travesseiros. Enquanto isso, Travis olhava abismado se perguntando como era possível que meu braço todo cabesse naquela mochila. Finalmente os encontrei e tirei da mochila. Deixando ele mais abismado ainda.
- Pegue. Use esse travesseiro para dormir. - Depois disso, nos deitamos e nem uma palavra mais foi dita. Pelo menos eu acho. Dormi tão rápido que nem sei se Travis tentou falar comigo depois.
Na dia seguinte, Artemis fez questão de nos acordar bem cedo. E dessa vez nos levou para o acampamento e explicou a missão. Seríamos alvos móveis para o treino de arco e flecha de suas caçadoras. Em seguida, a deusa nos entregou dois escudos e falou que “era melhor que usássemos”.
Após isso, caçadoras começaram a surgir de todos os cantos e se armavam com seus arcos e flechas. Os olhares que elas nos lançavam não eram os mais amigáveis. E apenas pelo olhar delas, eu e Travis já sabíamos que o dia ia ser complicado.
Artemis esperou que todas estivessem alinhadas e preparadas para explicar como seria o treinamento. E pelo que eu ouvi, mesmo de longe, nós poderíamos correr entre algumas árvores e nos esconder. Depois que a deusa se certificou que todas as caçadoras entenderam a sua missão, ela nos olhou e com um sorriso maléfico disse:
- Que os jogos comecem! -
Foi então que dezenas de flechas voaram em nossa direção, ainda que instintivamente, eu e Travis nós protegemos com o escudo e corremos. E elas correram atrás da gente. Já se preparando para um novo ataque. E os novos ataques vieram. Era flecha pra todo lado. Ataque massivo. Elas realmente queriam nos matar.
E lembram quando eu disse que Artemis não ia deixar um filho de Apollo, seu próprio irmão, morrer? Pois é, eu estava ligeiramente enganado.